Luto pelas vítimas dos ataques em São Paulo

Os fatos ocorridos no Estado de São Paulo e exibidos pela imprensa desde o dia 13/05/05 teriam um impacto maior, não fossem eles uma tragédia anunciada há pelo menos uma década. Nada do que está acontecendo é novidade para nós, agentes da Lei, a não ser o teatro de operações escolhido pelos bandidos. Diariamente policiais enfrentam os bandidos dentro de seus guetos e os combates ocorrem em uma intensidade bem maior do que estamos assistindo agora. Diariamente policiais são assassinados nas ruas, em dias de folga, perto de suas casas ou em qualquer outro lugar onde sejam descobertos e identificados. Só as autoridades que governam o nosso país não atentam para os fatos. Só os hipócritas não percebem que, até sexta-feira, 12/05/06, os guetos estavam sob controle e nós, policiais faxineiros, empurrávamos a sujeira para baixo do tapete.

Nossas cadeias não recuperam ninguém. Nossas escolas não educam como deveriam e as famílias não tem condições de oferecer uma criação adequada aos seus filhos e no final é a polícia que tem que dar cabo da revolta, da incompreensão e da falta de oportunidades. Quando tudo falhou, nos cobram atitudes e depois criticam nossas ações. Nosso objetivo é, e sempre será, a repressão e onde há repressão sempre haverá mais violência.

Os guetos estão superlotados e os muros não mais suportam a pressão de dentro para fora. Essa guerra começou a ser travada há muito tempo. O episódio paulista é apenas um dos combates e precisamos redefinir nossas estratégias daqui por diante. O mais triste de tudo é saber que nessa guerra não haverá vencedores e nem vencidos. Só as famílias lamentarão suas perdas. O que será que se passa na cabeça de um magistrado que autoriza um bandido encarcerado a sair da cadeia para gozar de direitos, quando sabe-se que, em liberdade, ele obrigará as pessoas de bem a viver em uma angustiante incerteza de futuro? O que será que se passa pela cabeça dos chefes dos executivos quando vêm uma criança desesperada chamar pelo pai quando o caixão desce a cova? Será que não percebem que mais cedo ou mais tarde a violência baterá na porta de seus gabinetes, independentemente do número de seguranças ao seu redor?

Certa vez o músico Marcelo Yuka me perguntou por que escolhi a profissão de policial e por que ainda continuo trabalhando. Respondi que a escolha era um sonho de criança e a permanência na função, apesar dos reveses, era a sensação de que a missão ainda não estava completa, que o ideal ainda não havia sido alcançado, que sempre haverá um objetivo mais à frente. Vocês podem estar certos de que esse é o pensamento que está fixado na cabeça dos policiais e, por maior que seja a dor e o luto da perda dos companheiros, o trabalho continuará a ser feito, em qualquer lugar, a qualquer dia e a qualquer hora.

Não existe espaço para o medo, apesar da revolta.

V!VA Polícia!

Luiz Mattos - Presidente

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